Comitê da Cultura de Paz

Rede de mulheres liberianas

O texto a seguir foi produzido pela Profa. Lia Diskin para a cartilha Cultura de Paz – Redes de Convivência, editada pelo SENAC São Paulo, e ajuda a conhecer melhor uma das ganhadoras do Prêmio Nobel da Paz 2011, Leymah Gbowee. O download gratuito da íntegra da cartilha pode ser feito clicando aqui.

Foto: Pewee Flomoku
Um outro exemplo do poder transformador que pode ter um pequeno grupo de pessoas mobilizadas por uma causa comum e dispostas a encontrar caminhos criativos para alcançar seus propósitos – mesmo que de início pareçam improváveis – aconteceu na Libéria, país da África Ocidental que durante décadas foi dilacerado por lutas entre facções e guerras civis.

Foi nesse cenário que cresceu e viveu Leymah Gbowee que, a partir de um sonho, conclamou as mulheres de sua igreja, a luterana, a se unirem para protestar e acabar com a luta fratricida que já havia consumido 200 mil vidas e deixado mais de um milhão de refugiados. As adesões começaram a alimentar suas esperanças. Então foi ao encontro das mulheres muçulmanas e, juntas, criaram em 2002 a Ação em Massa das Mulheres Liberianas pela Paz. Vestindo camisetas brancas com mensagens de paz, saias e turbantes brancos, sem joias, sem penteados, iam às igrejas, mesquitas, ruas, mercados, e sentavam-se dias a fio – sob sol e chuva – em frente à Embaixada dos Estados Unidos, em frente à casa do então presidente da Libéria, “armadas” apenas com seus cartazes, petições, abaixo-assinados e as mensagens de suas camisetas. Sem parar, elas cantavam – cantavam pela dignidade e o futuro de suas crianças. Faziam comida e distribuíam aos refugiados de seu próprio país, convidando as mulheres a tomarem para si a tarefa da paz.

Leymah Gbowee desafiou até os negociadores do escritório da ONU, exigindo estabelecer com eles uma parceria, ciente de que não conheciam a realidade e a cultura locais. Quando as tropas rebeldes chegaram à capital e os partidos políticos negociavam em Gana, ela organizou com as mulheres um cerco ao edifício onde deliberavam os líderes, para impedir que saísse ou entrasse qualquer um antes de chegarem a um acordo de paz. Um guarda veio prender Leymah e ela desatou o turbante ameaçando despir a roupa, o que na Libéria equivale a uma maldição. O guarda voltou atrás. Os líderes foram forçados a chegar a um acordo, e formou-se um governo de transição.

Em 2005, com mais de 60% dos votos, Ellen Johnson-Sirleaf tornou-se a primeira mulher a ser eleita presidente em toda a Áfriica e, obviamente, na Libéria. Leymah Gbowee é hoje Diretora Executiva do Women Peace and Security Nettwork for Africa, e consultora da presidente para assuntos de reconstrução democrática do seu país.

Moral da história: contrariando o senso comum, às vezes uma andorinha faz verão!

Veja também uma entrevista exclusiva com Leymah Gbowee, em inglês, feita pelo jornal Huffington Post e publicada em 10/08/2011.