Comitê da Cultura de Paz

30º Fórum
Economia Solidária e a Cultura de Paz

A cultura do Eu-Sem-Nós é o fundamento da guerra, da agressão, da competição, da violência contra o Outro e contra a Natureza. Ela também pode ser chamada de Cultura Patriarcal, e tem como emoções que motivam o comportamento das pessoas o egoísmo ou a consciência “egológica” característica de um Masculino dominante, o desejo de controle, do poder como um fim e não como um meio, a hierarquia, o autoritarismo, o dogmatismo, a dominação, de um lado, e a dependência e a subordinação, do outro. Isto ocorre tanto nas relações socioeconômicas nos espaços local, nacional e internacional, quanto nas relações de gênero, nas de caráter interpessoal e na relação do ser humano com a Natureza. As formas de organização da sociedade centradas no Capital e no mito do Livre Mercado e do mercado auto-regulado são típicas da Cultura Patriarcal. Esta é, por sua própria essência, uma cultura de opressão, de injustiça e de guerra. Não será possível uma Cultura de Paz sem a superação do patriarcalismo.

A história recente está marcada pela tentativa de superar a cultura do Eu-Sem-Nós através da inversão dos termos, que gerou a Cultura do Nós-Sem-Eu. Esta é a cultura do extremo coletivismo. Esta cultura resultou no esvaziamento do projeto socialista, substituindo-se a Sociedade pelo Estado e pelo Partido como sujeito principal do poder de gestão sobre a Nação e o povo. O resultado foi um totalitarismo crescente, cuja derrota se deu por implosão e não por intervenção externa. A cultura do Nós-Sem-Eu também pertence ao universo patriarcal e tem sido obstáculo a uma Cultura de Paz.

A Economia Solidária emerge, primeiro, como formas associativas e cooperativas de organização do trabalho, da produção e do consumo com um objetivo mais imediato de viabilizar a sobrevivência de um crescente número de pessoas excluídas do mercado capitalista de trabalho e com pouco ou nenhum poder de compra. A esta modalidade chamamos Economia Popular. Aos poucos foi ficando evidente que os empreendimentos a nível micro não teria viabilidade se não se articulassem entre si, formando redes de colaboração solidária. A lógica solidária do bem comum, do respeito mútuo e da solidariedade vigorando dentro de cada empreendimento cooperativo, é estendida à relação com todos os outros empreendimentos cooperativos e atores da Economia Solidária.

Através de redes que promovem o consumo ético, solidário e sustentável, o comércio justo, as finanças solidárias, a educação para a cooperação e a solidariedade e a comunicação dialógica e solidária, vamos aos poucos construindo uma nova economia no interior da velha economia, uma nova globalização cooperativa, solidária e de paz, capaz de superar a globalização competitiva, belicista e desumanizadora que prevalece atualmente. Na Economia Solidária prevalece a cultura do respeito próprio e do Outro, da partilha, da solidariedade, da compaixão, da partilha, da amorosidade e da paz. Seu fundamento é o paradigma do Eu-e-Tu, do Eu-e-Nós, do Eu-Contigo e Conosco. Este paradigma está na raiz de uma Cultura que podemos chamar de Matrística, na qual prevalecem os valores relacionados com o ambiente da casa e a figura da mãe, com sua consciência “ecológica”, que inclui a todos e a cada um.

 


Dr. Marcos Arruda: É economista e educador do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), Rio de Janeiro. É sócio do Instituto Transnacional, com sede em Amsterdã.

 


ENTRADA FRANCA
23 de março de 2004 – terça-feira – 18h
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo –
Auditório Paula Souza